Para Iniciantes

Antes do Tom — a tia Fátima e as verrugas

5 min de leitura20 de abril de 2026

Eu falei que a minha história com cura começou em 2016, com o Tom. Mentira pequena. Começou bem antes — aos seis anos, numa esquina de São Bernardo do Campo, com uma caixinha de fósforo vazia e alguns feijões.

Quem me iniciou foi a minha tia Maria de Fátima. Naquela época eu tinha a mão cheia de verrugas no dedo indicador. Umas quatro, cinco, teimosas, pequenas. Passava o dia olhando pra elas, passando a mão por cima, coçando, lembrando que estavam ali. Incomodavam mais pela presença do que pela dor.

Um dia, cansado, eu cheguei pra ela e reclamei. Ela olhou pra minha mão, sorriu de canto, e mandou:

Vai lá na cozinha e pega uma caixinha de fósforo vazia. Traz uns feijões também.

Eu peguei. Ela pediu pra eu colocar um feijão em cima de cada verruga, um por um. Depois guardar todos os feijões dentro da caixinha. A gente caminhou até a esquina mais próxima. Lá, de costas pra mim, ela fez alguma coisa — sei lá, rezou, pediu, chamou. E disse:

Agora joga essa caixinha por cima do ombro, pra trás. A gente volta pra casa e você não pode olhar.

Joguei. Voltamos. Ela completou o truque:

Seu trabalho agora é esquecer que você tem verruga. Quando você esquecer de verdade, ela vai sumir.

Fiquei intrigado. Como é que eu ia esquecer uma coisa em que eu pensava o dia inteiro? Mas uma coisa a minha cabeça de criança pegou: se eu ficar passando a mão, vou lembrar. Se eu parar de passar, talvez eu esqueça. Então, da primeira vez que fui encostar no dedo, parei no meio do caminho. Pensei em outra coisa. Da segunda vez, idem. Da terceira. Foi indo assim, um esforço pequeno e teimoso, por semanas.

Um dia — e desse dia eu lembro como se fosse ontem — eu estava subindo a rampa da escola, primeira série, começo de manhã. Do nada, lembrei das verrugas. Olhei pra mão pra conferir. Não tinha mais nenhuma. Nenhuma. Tinham saído sem eu perceber, no meio do esquecimento.

Foi ali, com seis anos, que eu entendi sem saber explicar: o corpo ouve a mente. A presença das verrugas era alimentada pela minha atenção nelas. A ausência foi construída pelo meu desinteresse. A tia Fátima sabia disso. Os feijões e a caixinha eram só o ritual, a moldura. O remédio era o esquecimento.

Levei anos pra entender que aquilo não era mágica de tia — era uma das formas mais antigas de cura que existe. O corpo responde ao que a cabeça insiste. Dor que a gente não larga, não larga a gente. Doença que vira identidade não sai mais.

Eu queria terminar a história aqui, bonita. Mas tem uma parte que dói, e precisa ser contada. Dois anos depois daquela esquina, a tia Fátima descobriu um câncer de mama. Fez o caminho convencional — cirurgia, radioterapia, quimioterapia. Eu tinha oito anos quando vi o corpo dela ir se gastando, semana após semana, mês após mês. A pele mudando de cor, o cabelo indo embora, o corpo encolhendo, a mulher que tinha me ensinado a esquecer virando uma sombra de si mesma. Morreu moça, arruinada pelo tratamento tanto quanto pela doença. Talvez mais.

Eu só vim entender o tamanho daquilo muito depois. A mesma tia que sabia que o corpo ouve a mente, que ensinou uma criança de seis anos a curar verruga com intenção e esquecimento, não teve quem chegasse pra ela com ferramenta à altura do que ela merecia. Foi atropelada pelo protocolo oficial. Saiu daqui consumida.

Eu carrego essa perda até hoje como uma dívida. E — eu só fui entender isso escrevendo este livro — uma das razões fundas pelas quais eu faço o que faço é pra que menos gente tenha que passar pelo que a tia Fátima passou. Pra que a informação certa chegue em mais mãos, mais cedo. Pra que o feijão na caixinha de fósforo não seja a última coisa que uma tia consegue oferecer antes do sistema engolir ela.

Por isso, se você chegou aqui com um problema que te persegue, uma doença que virou rótulo, uma dor que você já carrega há tanto tempo que nem sabe viver sem — antes de qualquer protocolo, antes de qualquer dose de CDS, faça um combinado com você mesmo: em algum momento, você vai ter que aprender a esquecer. Não negar. Esquecer. Olhar pra outra coisa. Deixar o corpo trabalhar no silêncio que você oferecer a ele.

A tia Fátima me ensinou isso antes do Tom, antes do CDS, antes de eu saber que saúde era assunto. Hoje, tantos anos depois, eu vejo que todo o Método Corpo Limpo desce dessa lição simples: limpa o corpo, limpa a cabeça, e confia que o corpo sabe o resto. O que ela não teve, eu dedico a minha vida a entregar pros outros.

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